CONHECENDO A LINGUAGEM DE CRISTO

O Senhor Jesus falava de um modo sutil, segundo Mateus 13:34-35 e Salmos 78:2. Assim, não é estranho que algumas afirmações feitas por ele sejam aparentemente contraditórias. As supostas contradições nas palavras de Cristo podem ser vistas nas seguintes passagens: João 14:28, João 11:4, Mateus 28:18, Mateus 6:10, Lucas 17:21, João 14:9, Lucas 7:22, Mateus 11:5, Mateus 8:22 e Mateus 15:1-2; 17-20.

Os textos mencionados neste artigo parecem estar em oposição, mas uma pequena dose de bom senso, associada a um exame cauteloso do contexto e ao conhecimento mais apurado da gramática, podem resolver todo o problema relativo a cada um deles, como veremos a seguir, analisando cada uma das passagens.

Em João 14:9, Cristo se coloca em posição de igualdade para com Deus, porém em João 14:28, ele afirma ser menor que o Criador. Essas passagens parecem divergir uma da outra, mas um exame de João 11:4, Filipenses 2:7 e Hebreus 2:9 nos permite entender que o Senhor se referia à sua natureza humana. Nesse caso, ele poderia até mesmo afirmar que era menor que os anjos, arcanjos, querubins e serafins.

O que vimos no evangelho escrito por João pode ser visto em Lucas 17:21 e Mateus 6:10. Em Lucas o Senhor Jesus diz que o reino de Deus está entre nós. Já em Mateus, ele diz: “venha a nós o teu reino”. Essas afirmações parecem contraditórias. Todavia, se considerarmos que o verbo vir (venha) é usado com o sentido específico de ajudar, socorrer, veremos que não há contradição.

Em Lucas 7:22 e Mateus 11:5 Jesus disse: “Os cegos veem e os surdos ouvem”. Nesse caso, o Senhor usou uma figura de linguagem, conhecida por antítese, que consiste no uso de uma palavra com uma ideia contrária.

Uma outra passagem aparentemente contraditória está em João 11:4. Nesse texto o Senhor Jesus afirmou que a enfermidade de Lázaro não era para morte. No entanto, todos sabemos que aquele homem morreu. Essas palavras não denotam que Cristo entrou em contradição. Mas se observarmos que antes de declarar a morte de Lázaro, Jesus disse que o mesmo estava dormindo, veremos que, nesse caso, o Senhor usou duas linguagens: a humana e a divina. Pois, sendo ele a ressurreição e a vida, para Cristo Lázaro estava vivo! Por fim, usando uma expressão puramente nossa, Jesus afirmou que Lázaro faleceu.

Em Mateus 28:18, Jesus disse que todo o poder lhe foi dado. Esta é uma passagem que parece negar a deidade de Cristo. Contudo, se considerarmos os contextos, que o colocam em posição de igualdade para com Deus, devemos levar em conta as sutilezas de suas palavras. Pois em Filipenses 2:7, temos que o Senhor se esvaziou da glória (João 1:14, Hebreus 2:9 e Gênesis 18:1-2). Assim, não devemos atribuir ao verbo dar o significado literal de doação, pois não podemos doar a alguém aquilo que já lhe pertence. Portanto, nessa passagem, aquele que construiu o universo para si mesmo (Colossenses 1:16-17), apenas retomou a glória da qual se esvaziou (Filipenses 2:7, João 1:14, Hebreus 2:9 e Gênesis 18:1-2). Isto, porque, sendo o próprio Deus (o verdadeiro Teós), ele não poderia ser visto na sua essência (Êxodo 33:20).

Falando ainda das sutilezas de Cristo, convém definir Mateus 8:22, bem como Mateus 15:1-2; 17-20.

Em Mateus 8:22 o Senhor Jesus lembrou que devemos priorizar o reino de Deus. Isto não significa que ele estivesse proibindo o discípulo de sepultar o respectivo pai (Mateus 8:21). Nesse caso, Jesus queria dizer que devemos priorizar os cuidados para com a vida espiritual, e que os cuidados com a priorização para com os serviços desta vida ficassem por conta dos que estão mortos espiritualmente.

Quanto à passagem de Mateus 15:1-2; 17-20, devemos lembrar que ela não tem nada a ver com a conduta moral, no relacionamento com Deus, mas que apenas tenhamos o cuidado com a saúde do corpo. Nada mais que isso!

Enfim, terminamos, lembrando a todos que as palavras de Cristo podem ser comparadas às do Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, que, muitas vezes, falava conosco em linguagem humana. Por exemplo, Gênesis 3:9, Gênesis 6:6, Êxodo 3:7-8, 1º Reis 19:13, etc. Assim, do mesmo modo, para “conversar” com os passarinhos, é necessário usar a linguagem dos passarinhos.

Quanto ao mais, que Deus nos esclareça.

Irmão Dionísio

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