UMA QUESTÃO DE REGÊNCIA VERBAL
Em vários textos bíblicos, lemos que Deus perdoa pecados. Mas, ainda assim, ouvimos alguns teólogos afirmarem o contrário. Porém, consultando os melhores dicionários, notamos que o verbo perdoar vem do latim “perdonare” e significa desculpar, inocentar, retirar a culpa; sendo, também, transitivo direto e indireto; e, como tal, possui dois complementos. Os complementos verbais, como o próprio nome já evidencia, são palavras que completam a ideia expressa pelo verbo. Quando o complemento verbal é ligado diretamente ao verbo, sem preposição, ele é um objeto direto. E, se precedido de preposição, é objeto indireto.
Para dirimirmos dúvidas quanto ao uso correto do verbo perdoar, apresentamos os seguintes exemplos:
- O banco perdoou o débito ao (ao = a + o) devedor;
- Deus perdoou o pecado ao (ao = a + o) pecador.
Notamos que as palavras sublinhadas são objeto direto e indireto, respectivamente, em cada frase. Sendo as palavras devedor e pecador precedidas pela preposição “a”. Indicando que as mesmas são objeto indireto; de acordo com as regras de regência verbal.
Esclarecendo ainda o que estamos evidenciando, citaremos mais dois casos de complemento verbal, com os bitransitivos dar e escrever, nas frases seguintes:
- Lucas deu um livro a seu irmão;
- Paulo escreveu uma carta aos (aos = a + os) Romanos.
Como no exemplo anterior, as frases mencionadas seguem a mesma linha de raciocínio.
Uma observação: devemos saber que o verbo perdoar não é sinônimo de amar, concordar, gostar, etc. Se ele, ao menos, fosse igual ao verbo amar, por hipótese, então seria correto afirmar que o Senhor não perdoa pecado; pois, nesse caso, estaríamos afirmando que Deus não ama o pecado. E, de fato, Ele não ama, mesmo! Ele ama o pecador, mas odeia o pecado.
Na verdade, a confusão que se faz quanto ao verbo perdoar, infelizmente, é devida à falta de intimidade com as regências verbais; e essa questão só pode ser resolvida, estudando o assunto.
Ademais, é oportuno salientar que, o gesto de não punir o infrator, o inadimplente, o pecador, é conhecido, exatamente, como perdoar os respectivos erros às pessoas que os cometeram. Não esquecendo que o referido verbo é gramaticalmente conhecido como bitransitivo; exatamente porque exige dois complementos, ao mesmo tempo; sendo esses complementos considerados como objeto direto e indireto, respectivamente.
Afinal, o argumento de certos teólogos de que Deus não perdoa pecado, é a coisa mais absurda que podemos ouvir!!!
É lamentável acrescentar que alguns cometem erros de interpretação das Escrituras Sagradas, por falta de um conhecimento mais apurado da língua portuguesa. Em razão disso, bom seria que todos os cursos de teologia inserissem, nas respectivas planilhas, o ensino da gramática de nosso idioma; o mínimo necessário à compreensão dos textos bíblicos que dependem tão somente dessa aprendizagem. Com isso, é claro que os futuros teólogos ficariam livres de repassarem ensinos contrários à Palavra de Deus, no que dependesse apenas do conhecimento da gramática.
A propósito, o que nos obrigou a escrever este artigo, foi que um teólogo afirmou, em pleno salão de culto, que Deus não perdoa “pecado”. Mas, ao invés de afirmar que Deus não perdoa “pecado”, aquele servo do Senhor deveria dizer, sem sombra de dúvida, que Deus não perdoa “o pecador”. Ele perdoa, sim, “ao pecador”. Pois o erro está no uso incorreto da regência verbal; visto que o verbo perdoar é transitivo indireto de pessoa. Por esse motivo, a palavra “pecador”, obrigatoriamente, deve ser precedida de preposição, justamente por ser um objeto indireto do verbo perdoar.
Que Deus nos abençoe e fale melhor aos nossos corações, em nome de Jesus.